Alta contagem de células somáticas: Um problema silencioso

Melina Bonato e Liliana Borges (P&D, ICC Brazil)

 

As contagens de células somáticas (CCS) estão relacionadas ao número total de células por mililitro no leite. De forma primária, a CCS é composta de leucócitos produzidos pelo sistema imunológico da vaca durante um processo inflamatório na glândula mamária, normalmente conhecida como mastite (Looper, 2012). Essa inflamação resulta da colonização e multiplicação de micro-organismos patogênicos na glândula mamária e de diversos eventos complexos que levam à atividade sintética reduzida, alterações na composição e alta CCS no leite; a magnitude e a relação temporal dessas respostas variam de acordo com o estado nutricional, outros fatores do animal e o patógeno envolvido. Contudo, considerando que o aumento na CCS constitui resposta a uma infecção na glândula mamária por mediadores pró-inflamatórios, o principal fator que influencia a CCS é o estado da infecção. Os efeitos do estágio da lactação, da idade, da época e dos diferentes fatores de estresse na CCS (Rupp et al., 2000) são secundários se a glândula não estiver infectada. Exceto pela variação diurna normal, poucos fatores, além do estado da infecção, possuem impacto significativo na CCS no leite (Harmon, 1994).

O tipo de célula predominante presente no leite, além de células epiteliais de descamação, são os leucócitos, que incluem macrófagos, neutrófilos polimorfonucleares (NPMs) e linfócitos (Boutinaud e Jammes, 2002). Os macrófagos são geralmente o tipo celular predominante no leite de vacas saudáveis. Eles conseguem combater invasões bacterianas rapidamente, fagocitando o antígeno e liberando mensageiros que são reconhecidos pelos NPMs (também conhecidos como células fagocíticas), que serão reunidos no local da infecção (Li et al., 2014). Quando os NPMs chegam ao local da infecção, eles fagocitam micro-organismos e os eliminam utilizando uma combinação de mecanismos oxidativos e não oxidativos (Pham, 2006).

A CCS no leite naturalmente aumenta após o parto quando o colostro é produzido, antes do início da lactação, e tende a diminuir até o final da lactação. Contudo, a contagem pode variar por diversos motivos, incluindo efeitos sazonais e de manejo. Essencialmente, uma CCS menor indica melhor saúde do animal, pois as células somáticas se originam no interior do úbere do animal. O monitoramento da CCS é importante porque, conforme o número de células somáticas aumenta, o rendimento do leite tende a cair, principalmente devido ao dano ao tecido que produz leite no úbere, causado pelos patógenos da mastite e pelas toxinas que eles produzem, especialmente quando células epiteliais são perdidas (AHDB, 2018). Entretanto, uma baixa CCS está, às vezes, relacionada a uma resposta imune ineficiente, porém, em termos gerais, isso não é necessariamente verdade. Pode ser que a infecção instalada seja, simplesmente, uma infecção fraca. A resposta imune é melhor avaliada pela velocidade na qual o sistema imunológico reage ao desafio imposto pela doença, e não pela quantidade de leucócitos presentes antes da ocorrência da infecção (AHDB, 2018).

As contagens de células tendem a refletir uma resposta aos patógenos contagiosos da mastite: a contagem de Bactoscan, por outro lado, indica o nível de contaminação bacteriana de fontes externas, como limpeza ineficiente do equipamento de ordenha ou preparação incorreta do úbere e do teto antes da ordenha, e pode indicar um alto nível de patógenos ambientais (AHDB, 2018). De acordo com a União Europeia (UE), o úbere é considerado infectado quando a CCS está acima de 200.000 células/mL, e quando a CCS está acima de 400.000 células/mL, o leite não é aceito para consumo humano. Entretanto, os valores para aceitação do leite nas indústrias de laticínios variam em diferentes países (Li et al., 2014).

Na prática, há dois métodos para controlar a mastite no rebanho: abater as vacas, uma solução em curto prazo que pode rapidamente reduzir a CCS no tanque a granel; e controlar a mastite, uma solução em longo prazo. O segundo método deve se basear no monitoramento de cada animal mensalmente (com registros das CCS em um programa de prevenção de mastite); no aperfeiçoamento das condições sanitárias (simplesmente manter o úbere limpo e livre das bactérias patogênicas causadoras da mastite); nas condições ambientais (o local utilizado para repouso deve estar sempre seco; o alimento no pasto ou em confinamento deve estar livre de lama e objetos, como gravetos, que machucam o úbere); no manejo especial das novilhas (as bezerras devem ser criadas separadas para evitar que mamem; a população de moscas deve ser controlada para reduzir a proliferação das bactérias que causam mastite; as novilhas devem ser separadas das vacas);  no manejo das vacas secas (o risco de infecções intra-mamárias é maior durante o início e o fim do período seco, quando os patógenos não são eliminados pelo fluxo diariamente); e na nutrição para prevenir o problema (nutrição envolve manter a imunidade; energia inedequada ou deficiências podem afetar a resistência do animal) (Looper, 2012).

Uma das estratégias que poderia ser utilizada para melhorar a imunidade e, consequentemente, reduzir a CCS, é a suplementação com RumenYeast® de Saccharomyces cerevisiae, composto por metabólitos e parede celular de levedura (rico em mano-oligossacarídeos [MOS] e β-glucanas). Os metabólitos derivados da fermentação da levedura são um excelente substrato com nutrientes que modulam a flora ruminal, acelerando a digestão da celulose e da hemicelulose, beneficiando bactérias e protozoários, estabilizando o pH ruminal e aumentando a produção de AGVs (Dias et al., 2017a,b).

As β-glucanas são conhecidas como moduladoras ou estimulantes do sistema imunológico. Elas são estimulantes naturais e efetivas do sistema imune inato e quando entram em contato com macrófagos, que reconhecem as ligações β-1,3 e 1,6 (Petravic-Tominac et al., 2010), essas células são estimuladas e produzem algumas citocinas que iniciam uma reação em cadeia, induzindo imunomodulação e melhorando a capacidade de resposta do sistema imune inato.

Os MOS, como mencionado acima, também são componentes estruturais da parede celular de levedura e são conhecidos por sua capacidade de se aglutinar a patógenos (com fímbria tipo 1), como diversas cepas de Salmonella e Escherichia coli. Os MOS oferecem um local de ligação aos patógenos, impedindo a colonização do epitélio intestinal, sendo que as bactérias aglutinadas são excretadas junto com a porção não digerível das fibras.

De acordo com Dias et al., 2017 (a), RumenYeast® reduziu a concentração de haptoglobina no sangue, uma glicoproteína de fase aguda produzida pelo fígado durante processos inflamatórios; nesse caso, causados pelo alto nível de amido na dieta. Diferentes estudos de campo demonstraram redução na CCS em todo o mundo (Tabela 1).

Diversos estudos demonstraram que o RumenYeast® pode aumentar a produção de leite em +2 kg/vaca/dia, bem como melhorar a qualidade do leite (gordura e proteína), reduzir a CCS e a incidência de doenças, e também a contaminação por micotoxinas no leite. A combinação de uma nutrição adequada ao rúmen com fortalecimento do sistema imunológico do animal resulta em maior produção diária de leite, além de reduzir as preocupações com a presença de resíduos no leite, fator este importante para conquistar um mercado consumidor cada vez mais exigente.

 

 

Referências Bibliográficas

AHDB – Agriculture & Horticulture Development Board, acessado em 26 de setembro de 2018. Acessível em: https://dairy.ahdb.org.uk/technical-information/animal-health-welfare/mastitis/symptoms-of-mastitis/somatic-cell-count-milk-quality-indicator/#.W6u_GXtKjIU.

Boutinaud, M. and Jammes H., 2002. Potential uses of milk epithelial cells: a review. Reprod. Nutr. Dev. 42:133–147.

Dias et al. 2017 (a). Effects of supplementing yeast culture to diets differing in starch content on performance and feeding behavior of dairy cows. J. Dairy Sci. 101:1–15.

Dias et al. 2017 (b). Effect of supplemental yeast culture and dietary starch content on rumen fermentation and digestion in dairy cows. J. Dairy Sci. 101:1–21.

Harmon, R. J., 1994. Physiology of Mastitis and Factors Affecting Somatic Cell Counts. Journal of Dairy Science, 77 (7): 2103-2112.

Li, N. et al., 2014. Role of somatic cells on dairy processes and products: a review, Dairy Sci. & Technol. (2014) 94:517–538, DOI 10.1007/s13594-014-0176-3.

Looper, M., 2012. Reducing Somatic Cell Count in Dairy Cattle. The University of Arkansas, United States Department of Agriculture, and County Governments Cooperating, FSA4002.

Pham, C.T.N., 2006. Neutrophil serine proteases: specific regulators of inflammation. Nat. Rev. Immunol. 6:541– 550.